Não duvide. Tenha certeza!

Com o Dia dos Namorados, aumenta a procura pelos detetives particulares, que aproveitam a data para flagrar os vacilos dos infiéis. Hoje, o Diario desvenda o mistério que cerca esses homens quase invisíveis, capazes de enxergar o que ninguém vê.
FRED FIGUEIROA
DA EQUIPE DO DIARIO





"NÃO DUVIDE, TENHA CERTEZA!". Esta incitação funciona como um slogan apertado nos contados centímetros das palavras abreviadas e pontuação subentendida de um anúncio nos classificados do jornal. "CASOS: CONJUGAL E EMPRESARIAL EQUIPES MASC. E FEM. ATUAMOS EM TODO O BRASIL EXP.20 ANOS ATEND. 24 HRS CONS. DETETIVE BRASIL REG. 0600 SEC.-PE". Assim continua a pequena e intrigante propaganda, trazendo logo abaixo, em um corpo gráfico maior e mais escuro, dois números de telefone: 3326-2809/9989-7550.

Detetives inevitavelmente habitam o universo imaginário das pessoas como personagens enigmáticos e obscuros, subtraídos da atmosfera noir dos filmes policiais mais antigos. Aqueles homens de chapéu e sobretudo empoeirados, capazes de estar onde ninguém imagina, de enxergar o que ninguém vê, de perceber o imperceptível. Existe também a imagem do agente secreto sofisticado - eternizado pelo Bond. James Bond - que traz consigo um arsenal tecnológico que faz o impossível parecer algo tão simples quanto acender o cigarroe#, quem sabe, sumir na fumaça.

O telefone toca. Uma vez. Duas, três#talvez ninguém atenda. Mas, durante aqueles poucos segundos, a grande dúvida não é se alguém vai atender aquela ligação e sim, quem é a pessoa que vai dizer "alô". Existe uma certa resistência em acreditar que detetives existem do lado de cá das telas dos filmes, nesta não menos inacreditável vida real. "Alô". Sim, eles existem. Do outro lado da linha, o detetive Costa. Voz rouca e firme. Simples e objetivo, aceita dar a entrevista, mas avisa que, antes, fará uma rápida investigação para ter a certeza de que não está caindo em algum tipo de armação. Um pouco mais tarde, ele confirma a entrevista. Não pode ser na quarta-feira. Ele está investigando uma traição conjugal que o ocupará durante o dia e a noite. Fica para quinta-feira.

Os últimos dias têm sido de intenso trabalho para os detetives particulares. A proximidade do Dia dos Namorados faz com que o telefone deles toque muito mais do que o habitual. Nem poderia ser diferente. Os casos conjugais significam mais de 60% do mercado e é justamente nos dias que antecedem datas especiais que os alvos tornam-se mais vulneráveis. Os traidores ficam mais expostos a vacilos tolos como comprar um presente a mais do que "deveriam" ou antecipar o jantar especial que, por razões lógicas, não poderá ser hoje à noite.

Quinta-feira. Eram quase 15h quando Costa saiu do elevador e surgiu no hall do flat de alto luxo em que mora, no bairro de Boa Viagem. A atmosfera noir do imaginário popular se desfaz num encontro à beira da piscina. Costa tem quase 50 anos, veste camisa pólo, short e sandália. Segura um celular da moda e uma carteira de Free azul. Assim que senta na mesa, pede um café e acende o primeiro cigarro. Os óculos escuros escondem as marcas da madrugada anterior. Aquela investigação da quarta só terminou depois das 2h. As imagens estão gravadas numa câmera. Cenas proibidas de mais um caso de amor imperfeito. "Todo dia alguém está sendo traído", resume com a naturalidade de quem há mais de 20 anos flagra cenas de adultério no cotidiano da sociedade.

"Existe uma fantasia em relação ao detetive, mas somos profissionais que trabalham para descobrir a veracidade dos fatos, assim como faz um jornalista investigativo", diz Costa. "Claro que as pessoas sempre lembram do Sherlock Holmes ou do James Bond. Eles são só personagens da ficção. Mas a tecnologia do 007 não é coisa de filme. Ela existe", completa o detetive, tirando os óculos escuros do rosto e me entregando. - Veja você mesmo".

Com os óculos redondos e espelhados no rosto, vejo um funcionário do Flat cuidando do jardim. Até aí nada demais, se o funcionário não estivesse atrás de mim. Óculos com "retrovisor", ursos de pelúcia com câmeras internas, canetas que escrevem sem deixar tinta no papel, detector de mentiras, aparelhinhos de GPS que identificam movimentações e sons em qualquer lugar do mundo são alguns dos objetos que o detetive particular utiliza no seu dia-a-dia.

O trabalho de Costa é para poucos. Uma investigação conjugal custa, no mínimo, R$ 20 mil - se as ações acontecerem dentro do Recife. Quanto mais complexa a traição se revelar, os custos aumentam proporcionalmente, chegando a R$ 50 mil. No mercado, existem detetives que cobram bem menos. "Não menos de R$ 3 mil", revelou um outro detetive, o Barreto. Todo vestido de preto, com um chapéu e uma miniatura de coruja na mesa do seu escritório - que funciona em um dos cômodos da sua casa - Barreto diz que 95% dos seus clientes sabem que estão sendo traídos, mas querem ou precisam de uma prova. "Os outros 5% têm problemas de paranóia", analisa o detetive que atua há 25 anos e tem o 007 no final do número de telefone do seu anúncio no jornal - onde se auto-denomina em negrito "O caçador de provas - 9974.0007".

"Os valores variam com o que está em jogo", explica Costa, consciente da importância das provas para questões judiciais inerentes ao divórcio, como o valor da pensão e a guarda dos filhos. "Não sou um médico, masna situação em que alguém me procura, eu acabo sendo mais do que um médico. Quando você não tem saúde sentimental, não tem saúde nenhuma, não tem estabilidade financeira, não tem nada. A desconfiança mata, corrói uma pessoa de forma impressionante. O tormento psicológico pára a vida inteira. Não tem preço saber se a pessoa ao seu lado é fiel", analisa o detetive, enquanto fuma o quarto cigarro.

Um homem que tinha um caso com a sogra. A mulher que traía o noivo com o cunhado. A esposa que trocava de roupa dentro do banheiro de um shopping e saía em um táxi para encontrar o amante. O marido que acabou sendo castrado pela mulher revoltada. Histórias que têm duas coisas em comum: a traição e o flagrante registrado por Costa: "Já vi de tudo nessa vida".

O detetive acaba tornando-se o antagonista das histórias de amores imperfeitos. "Não somos os vilões dos relacionamento. Nossa intenção não é fazer com que os casais se separem e sim, que a verdade seja reestabelecida. Tudo é feito com muita discrição, às vezes até com o apoio de um psicólogo. E, quando tudo se revela, eles podem escolher o caminho que vão seguir. Muitas vezes, acontece a reconciliação e a vida do casal segue com uma sinceridade muito maior. Jogando limpo e sabendo que ninguém ali é bobo", conclui Costa, que prefere não ter o seu primeiro nome revelado e, muito menos, deixou ser fotografado para esta reportagem.

"Não preciso aparecer. Já saíram fotos minhas nas colunas sociais. Mas não como detetive. Só sabem quem eu sou, aqueles que precisam de mim. Não revelo meu nome, nem endereço. Você está aqui porque foi investigado", disse Costa, pouco antes de terminar a entrevista, caminhar até a porta do seu prédio, se despedir e deixar no ar a estranha sensação de que estamos sempre sendo vigiados.

Fonte: Jornal Diário de Pernambuco - 12/06/2007

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